domingo, 7 de novembro de 2010

O samba sempre salva.

No começo eu achava os queijos todos com um gosto muito forte e esquisito. A arquitetura da cidade também era diferente, os prédios antigos, baixos e entrempados um no outro, dando sempre a impressão de que o vizinho saberia tudo da sua vida. Na noite, nada o que fazer. Tudo fechando cedo. Ninguém fazendo baderna na rua. Ninguém bebendo na rua (é proibido)... E o costume de sair no domingo e na segunda não trabalhar? Quase como uma extensão do fim de semana, horário [não] incluso no funcionamento do comércio em geral? Era bizarro demais.

Hoje em dia eu como fromage de chèvre quase que diariamente. Acho ótimo os prédios não serem altos e até gosto de subir escadas (apesar do meu sedentarismo), já que nunca tem mesmo elevador em canto nenhum. É massa também isso de festar e poder voltar andando para casa, não só porque não é tarde, mas porque é muito tranquilo... Quando saio com uma breja na mão, é inerente deixá-la assim disfarçada, dentro da bolsa ou do sobretudo, e cada gole que vem depois do olha-prum-lado-e-pro-outro é gradativamente mais emocionante. O domingo é bem melhor que o de outrora, pois além de não ter Faustão, posso escolher, geralmente, entre ir aruerar num mercado de pulgas ou passear no centro e dar Bom Dia à uns velhinhos simpáticos. Vezenquando ainda me permito comer uma bagana deliciosa e pensar que cada graminha extra está valendo à pena (ainda que mamãe se impressione quando me vê um tantico rechonchuda na webcam). Isso sem falar que as tão más-ditas segundas-feiras se tornam suportáveis quando percebo que a preguiça de início de semana não é só minha.

Mas, se tem uma coisa com a qual eu não me acostumei ainda, é o que posso chamar de “falta frequencial de proximidade afetiva”. A impressão que tenho é que as pessoas aqui andam dentro de bolhas invisíveis, cheias de proteções ultra modernas não identificáveis por pobres mortais de sangue latino americano. Do momento em que se diz “Oi tudo bem como é seu nome prazer o meu é tal”, segue-se um sem número de códigos corporais a ser observado. Às vezes, ao ser apresentado a alguém, a gente pode dar dois beijinhos – se o clima for bem informal e descontraído – só que daqueles bochecha com bochecha, bem xôxo. Se não, um aperto de mão é suficiente. Daí em diante, depende. Se o coleguinha sentir em você certa afinidade, ele vai te sugerir a troca de telefones. Tendo isso sido feito, você pode se atrever em escrever uma mensagem ou mesmo dar uma ligadinha, mas os assuntos têm que ser práticos, como um daqueles necessários para combinar ou avisar algo [comigo é geralmente “desculpa, vou me atrasar!]. Após essa barreira, tudo se trata de uma conquista diária. A primeira brincadeira, a primeira tiração de onda, a primeira encheção de saco... Coisinhas bobas, mas que vão dando nome à amizade.

Um dia, em Natal, pouco antes de vir para cá, eu estava conversando com uma amiga que já tinha morado aqui na Europa. Falávamos sobre algumas dessas diferenças de contato e lembro demais de uma frase que ela me disse: “Helô, o que você vai sentir mais falta é de poder abraçar”. Verdade. Puríssima verdade. Como eu sinto falta do abraço! Porque não é daqueles sem graça que falo [os que só agora – depois de quase três meses – começaram a surgir, e mesmo assim vindos dos poucos amigos que me são mais próximos]. É do abraço genuíno, sincero. Da espontaneidade, melhor dizendo. Do poder tocar, rir, dançar, na hora que der na telha. Qualidade um pouco rara pelas bandas de cá.
Por isso que semana passada, assim que soube de um barzinho que promoveria uma baladjinha intitulada de scène ouverte aux musiciens (espécie de Jam session), propus à Amandinha: “Quer saber? Vamo simbora fazer uma zuada nos ouvidos desses gringos?”. Claro, ela topou na hora. E lá fomos nós, eu com meu pandeiro (que já estava empoeirando, coitado) e ela com o mini ganzá, ambas esperançosas de subverter um pouco essa chata convenção social de não poder ser ou estar alegre sem motivos aparentes. Chegando lá, assim que se deu a oportunidade, peguei meu batuque, agarrei o microfone e comecei a enrolar timidamente algo de Chico Buarque. Mandinha logo se levantou e veio me acompanhar. Sei que, quando dei fé, já tinha um doido na bateria e outro no violão. Mais tarde dois dos nossos amigos juntaram-se a nós, e entre instrumentais sincopados e sambas desafinados, fizemos uma farra de deixar o bar todo em pé dançando! Até um francês nascido em Salvador apareceu (e, enquanto dançava quase igual à Globeleza, pediu para tocar Ivete Sangalo) na bagunça. Agora, eu, Mandinha e a nossa turma, estamos arquitetando um projeto de fazer um bloquinho de carnaval em Mulhouse, no próximo ano. Quem sabe não dá certo... Alguém topa vir?


PS: Sei que no post passado prometi fotos do aniversário de Amandinha, mas vou pôr um video que fizemos do parabéns, porque tá muito fofo!


 

3 comentários:

  1. Viva o samba e a música q nos aproxima e nos fz dar mta risada! um abraço bem apertadinho daqueles q só nós (brasileiros) sabemos dar.
    Claudia

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  2. Só quero deixar registrado um PARABÉNS (em português) pra Amandinha e um Bjão/FORTE ABRAÇO pra vcs!!!

    =**

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  3. Kkkkkkkkkkkkkk vcs tao esculhambando a frança po! So presta assim! Hehehe bote pra lascar nesse samba ai. Daqui a pouco o povo muda as regras por causa de vcs e mulhouse vai virar uma filial do buraco da catita. Bjao! E abracao tb! Hehehe

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