domingo, 3 de abril de 2011

Que se viva, então, todos os carnavais do mundo.

Depois de tanto tempo sem escrever aqui, eu me vejo parada, caixa de texto do blog aberta, pensando por onde começo, será que tento seguir com uma certa cronologia? ou vou aleatória, despretensiosamente desconexa? talvez no fim das contas não faça mesmo diferença. Vou contando então, tão somente (e nessa hora tenho vontade que vocês pudessem ter estado comigo em vários momentos - cada um combinando mais com cada pessoa outra).

O tempo andou curto, corrido, fugido, parecendo precisar de mais de vinte-e-quatro-horas para se fazer completo. Até que eu soube da festa. Doze de março, seria. Uma semana depois da brasileira, a que eu anualmente esperava, fazendo geralmente planos e preparativos desde janeiro, ansiosamente: o carnaval. Porque para mim não era só da farra a importância, mas do clima, da alegria, das cores, da música (os batuques e metais sincronizados, como eu gosto!). Quatro dias de festa, longe de tudo o que é sério e comprometido demais, vivendo num mundo pequenino de algumas ruas e ladeiras mas grande o suficiente de risos e sorrisos que o tornavam um canto qualquer de passos largos, onde dá vontade de correr e de pular, sem que a gente saiba ao menos o porquê de fazê-lo. O break que todo mundo precisa. Era isso, era isso, eu precisava de um break. Por isso resolvi que mesmo longe daquela euforia à qual eu estava acostumada, eu faria do lado de cá uma outra, já que a alegria pode mesmo se manisfestar de formas novas e o lugar é o detalhe que menos importa, no fim das contas.

Aí foi num sábado que eu guardei os livros [junto com um tanto de coisas imateriais], vesti a fantasia, chamei a Claudionor e comecei a cantar o frevo e o samba, do jeito que dava, sem um coro de duzentas pessoas, apesar de que as duas que me acompanhavam conseguiam - positivamente - torná-lo cem vezes mais forte (é tudo uma questão de sensação e efeito). Pronto, a noite já estava mais clara! O friozinho nem impedia mais nada. Saímos então rumo ao centro, e nos perdemos em meio à fanfarras e desfiles, blocos admirados pelo povo daqui, mas vividos por nós! E entre xilofones e valsas de Yann Thiersen, até tocou-se algo brasileiro, bizarramente clichê, mas engraçado de ouvir. Sei que a folia na rua durou até altas horas e nós, insaciados, ainda a continuamos em casa (que mais tarde estaria involutariamente forrada de confetis), ouvindo vinis de Paulinho da Viola e Baden Powell, fazendo um calmo e divertido fim de festa.

No dia seguinte, pernas e braços reclamavam do noite anterior. Só que não demos ouvidos, era dia de carnaval em Basel, na Suíça (que fica à apenas 22km de Mulhouse)! Um evento que, de tão curioso, se tornou imperdível.

Mesmo sendo uma cidade protestante desde 1520, essa comemoração, originalmente católica, continuou sendo celebrada por lá. Os dias de festa duram precisamente 72 horas e são conhecidos como os três mais belos do ano ("die drey scheenschde dääg", um tipo de slogan). Atualmente, o Morgestraitch, como eles chamam, é tido como uma das 50 principais festividades da Europa. Durante a madrugada as pessoas acordam (algumas talvez nem durmam), e pouco à pouco vão enchendo as ruas. Às e-xa-tas quatro horas da manhã, todas as luzes da cidade (literalmente) se apagam e as ruas dão lugar à um belíssimo desfile de máscaras. Incomum, nesse evento cada participante carrega consigo, acima da cabeça, pequenas lanternas com símbolos típicos. As alegorias repetem esse sistema iluminado, só que explorando sempre temas políticos, sociais ou ambientais da atualidade. O público que assiste é formado por um uma multidão (super organizada, aliás) que inclui não só suíços, como também milhares de visitantes franceses e alemães entre turistas de várias outras origens. É tudo muito mágico, parece que a gente está em uma época que não a nossa, num mundo diferente, de fantasia. O som dos pífanos e tambores ajudam também a nos transportar para algum lugar muito especial e delicado, imaginário. O cenário é incrível e obrigatório de conferir à quem quer que seja que esteja por essas bandas nessa época do ano. Voltamos para casa à sete da manhã, cansados e com sono e completamente  extasiados. Cada centímetro caminhado e cada segundo sem estar no quentinho da cama havia valido enormemente à pena.


PS: Sim, tenho fotos! Quem quiser, deixe um comentário com o endereço de email que eu envio um link com um álbum particular!

domingo, 2 de janeiro de 2011

Recomeçando.

É engraçado a forma como observamos as coisas depois que a gente sai de casa. Para mim, viver é um conjunto de sensações específicas. São os detalhes que, somados, fazem a diferença. O cenário vai se formando pouco a pouco, é uma junção meio aleatória [e contraditoriamente sequencial] de momentos que guardam cheiro, tato, gosto, dor, alegria... É o passar na rua que você morou quando era criança e lembrar dos dias de chuva que alagavam um tantico o calçamento de barro, dos riachos que se formavam lá e te davam a ideia de fazer barquinhos de papel e sair de casa, de pijama e sem chinela, pondo-os para navegar com a certeza de que estava num lugar inóspito, cheio de corredeiras furiosas as quais só você podia domar. É quase sentir o gosto da comida que a sua vó fazia nos domingos barulhentos de família reunida quando você tá andando na rua e percebe vir de alguma janela um aroma parecido com o daquele prato. É se arrepiar de aflição ao contar para um amigo sobre a primeira grande queda de bicicleta que você sofreu e que te resultou em arranhões que demoraram dias e dias para sarar. É esquisito como a nostalgia pode ser quase paupável...

E nesses quatro iniciais meses que tenho vivido longe de tudo o que sempre fui acostumada a ver, é inevitável que sejam recorrentes as comparações. Essa época de fim de ano, então, deixa tudo mais explícito. Talvez porque seja mais agitada, talvez porque tenha esse ar de mudança iminente que nos faz pensar. O fato é que desta vez o meu Natal foi completamente novo. As ruas aqui não são longas, nem guardam penduricalhos alumeados por toda a cidade: a decoração é praticamente só no centro (mas é uma graça!). Ao invés do calor e da correria de toda sexta-feira à tarde (no intuito de terminar logo os trabalhos e fugir para a praia), tem o frio, a neve e a vontade de ficar em casa no quentinho tomando chá ou chocolate quente. No lugar de shows e espetáculos públicos, aqui tem o Marché de Noël, um mercadinho com coisas típicas da região (comidas, artigos de decoração...). Tomei vin chaud (vinho quente com especiarias) e me deliciei com alguns quitutes alsacianos, ora doces ora salgados. O clima de Natal é tão genuíno que às vezes eu pensava mesmo que o Papai Noel ia aparecer.

Apesar de não ter podido fazer um circuito de turismo natalino, consegui visitar a lindíssima Freiburg, uma pequena vila medieval alemã há 45 minutos de Mulhouse. Localizada entre  cinco montanhas, tem a floresta negra como vizinha. Coincidentemente conhecida como Cidade do Sol (vale lembrar que sol não é igual a calor, peguei -6°C por lá), também tem o título de Cidade Verde, pelo respeito que tem ao meio ambiente. Pena que a viagem teve a rapidez de uma só tarde!

De ano novo, tudo foi bem! Eu e Amanda jantamos em casa, estouramos uma Champagne à meia noite, comemos uva e lentilha para dar sorte e depois fomos dançar na casa de uns amigos, pas mal!

Pois para vocês, meus queridos, Feliz Natal atrasado! Feliz Ano Novo atrasado! Isso porque sou tipicamente brasileira. Mas como para desejar coisas boas não existe hora certa: que 2011 possa ser muito especial e lhes traga saúde e boas conquistas. Da minha parte, fica um promessa: tentar dar notícias mais frequentemente!


PS: Braga-ruts! Feliz Aniversário (em tempo)! Um grande beijo, meu carinho e minha saudade. To te esperando por aqui, viu?! Você prometeu visita e vou continuar cobrando até você aparecer!

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Descobrindo.

Já fazia uns dias que eu esperava. Às vezes não sabia se com certa apreensão ou com uma ansiedade positiva. Sempre procurava as previsões e ficava um tanto decepcionada quando o dia era adiado...

Mas foi bonito, o nosso encontro. Eu corri para a varanda e fiquei lá olhando, quase sem notar o meu sorriso de canto de boca. Estava frio e eu nem lembrei de pôr o meu casaco, ignorei os dedos e nariz gelados e fiquei tentando entender aquele cenário, novo, tão diferente... 

Me deu uma vontade instântanea de ir para casa. O papo estava bom, o vinho aquecia um pouco o inverno... Só que eu precisava ver de perto, tocar, sentir. Então, me agasalhei e saí - "pessoal-tá-tarde-já-vou-boanoite-durmambem-atéamanhã". E quando pisei na calçada lá fora, já nem continha mais a felicidade, finalmente eles caíam, e como eram lindos os flocos de neve! A vontade que dava era de se jogar na grama que agora era branquinha, como se tivesse se transformado em outra coisa de doce, de leve, de macia.. Continuei a andar, no entanto. E depois corri e pulei e contive qualquer algazarra maior, porque todos dormiam, sonhando embaixo de seus cobertores quentinhos, enquanto eu esquecia que tinha aula bem cedo no dia seguinte.

Já faz uma semana que tá assim. E ainda me pego perdida, sempre que sobra alguns cinco minutinhos, analisando - com um jeito meio matuto de nordestina que só conhecia sol e suor - o branco que cai do céu, tão suave que parece dançar junto com o vento antes de atingir o chão ou resolver se instalar nos galhos de algum pinheiro.


domingo, 7 de novembro de 2010

O samba sempre salva.

No começo eu achava os queijos todos com um gosto muito forte e esquisito. A arquitetura da cidade também era diferente, os prédios antigos, baixos e entrempados um no outro, dando sempre a impressão de que o vizinho saberia tudo da sua vida. Na noite, nada o que fazer. Tudo fechando cedo. Ninguém fazendo baderna na rua. Ninguém bebendo na rua (é proibido)... E o costume de sair no domingo e na segunda não trabalhar? Quase como uma extensão do fim de semana, horário [não] incluso no funcionamento do comércio em geral? Era bizarro demais.

Hoje em dia eu como fromage de chèvre quase que diariamente. Acho ótimo os prédios não serem altos e até gosto de subir escadas (apesar do meu sedentarismo), já que nunca tem mesmo elevador em canto nenhum. É massa também isso de festar e poder voltar andando para casa, não só porque não é tarde, mas porque é muito tranquilo... Quando saio com uma breja na mão, é inerente deixá-la assim disfarçada, dentro da bolsa ou do sobretudo, e cada gole que vem depois do olha-prum-lado-e-pro-outro é gradativamente mais emocionante. O domingo é bem melhor que o de outrora, pois além de não ter Faustão, posso escolher, geralmente, entre ir aruerar num mercado de pulgas ou passear no centro e dar Bom Dia à uns velhinhos simpáticos. Vezenquando ainda me permito comer uma bagana deliciosa e pensar que cada graminha extra está valendo à pena (ainda que mamãe se impressione quando me vê um tantico rechonchuda na webcam). Isso sem falar que as tão más-ditas segundas-feiras se tornam suportáveis quando percebo que a preguiça de início de semana não é só minha.

Mas, se tem uma coisa com a qual eu não me acostumei ainda, é o que posso chamar de “falta frequencial de proximidade afetiva”. A impressão que tenho é que as pessoas aqui andam dentro de bolhas invisíveis, cheias de proteções ultra modernas não identificáveis por pobres mortais de sangue latino americano. Do momento em que se diz “Oi tudo bem como é seu nome prazer o meu é tal”, segue-se um sem número de códigos corporais a ser observado. Às vezes, ao ser apresentado a alguém, a gente pode dar dois beijinhos – se o clima for bem informal e descontraído – só que daqueles bochecha com bochecha, bem xôxo. Se não, um aperto de mão é suficiente. Daí em diante, depende. Se o coleguinha sentir em você certa afinidade, ele vai te sugerir a troca de telefones. Tendo isso sido feito, você pode se atrever em escrever uma mensagem ou mesmo dar uma ligadinha, mas os assuntos têm que ser práticos, como um daqueles necessários para combinar ou avisar algo [comigo é geralmente “desculpa, vou me atrasar!]. Após essa barreira, tudo se trata de uma conquista diária. A primeira brincadeira, a primeira tiração de onda, a primeira encheção de saco... Coisinhas bobas, mas que vão dando nome à amizade.

Um dia, em Natal, pouco antes de vir para cá, eu estava conversando com uma amiga que já tinha morado aqui na Europa. Falávamos sobre algumas dessas diferenças de contato e lembro demais de uma frase que ela me disse: “Helô, o que você vai sentir mais falta é de poder abraçar”. Verdade. Puríssima verdade. Como eu sinto falta do abraço! Porque não é daqueles sem graça que falo [os que só agora – depois de quase três meses – começaram a surgir, e mesmo assim vindos dos poucos amigos que me são mais próximos]. É do abraço genuíno, sincero. Da espontaneidade, melhor dizendo. Do poder tocar, rir, dançar, na hora que der na telha. Qualidade um pouco rara pelas bandas de cá.
Por isso que semana passada, assim que soube de um barzinho que promoveria uma baladjinha intitulada de scène ouverte aux musiciens (espécie de Jam session), propus à Amandinha: “Quer saber? Vamo simbora fazer uma zuada nos ouvidos desses gringos?”. Claro, ela topou na hora. E lá fomos nós, eu com meu pandeiro (que já estava empoeirando, coitado) e ela com o mini ganzá, ambas esperançosas de subverter um pouco essa chata convenção social de não poder ser ou estar alegre sem motivos aparentes. Chegando lá, assim que se deu a oportunidade, peguei meu batuque, agarrei o microfone e comecei a enrolar timidamente algo de Chico Buarque. Mandinha logo se levantou e veio me acompanhar. Sei que, quando dei fé, já tinha um doido na bateria e outro no violão. Mais tarde dois dos nossos amigos juntaram-se a nós, e entre instrumentais sincopados e sambas desafinados, fizemos uma farra de deixar o bar todo em pé dançando! Até um francês nascido em Salvador apareceu (e, enquanto dançava quase igual à Globeleza, pediu para tocar Ivete Sangalo) na bagunça. Agora, eu, Mandinha e a nossa turma, estamos arquitetando um projeto de fazer um bloquinho de carnaval em Mulhouse, no próximo ano. Quem sabe não dá certo... Alguém topa vir?


PS: Sei que no post passado prometi fotos do aniversário de Amandinha, mas vou pôr um video que fizemos do parabéns, porque tá muito fofo!


 

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

La rentrée e algumas bizarrices.

Aaahh, finalmente o início das aulas. Essas três últimas semanas têm sido, primordialmente, de adaptação. Explico. As dificuldades começam com o acordar cedo – e na hora certa. Às 7:00hs da manhã aqui, além de o dia ainda estar escuro, faz um frio que consegue, no mínimo, dobrar a preguiça. Pego a bike (às vezes o bondinho), chego na faculdade com as mãos e a “venta” congelando, entro na sala (ocasionalmente atrasada), tiro os 30 casacos, resmungo algo achando que no inverno vou virar um armário ambulante, e me deparo com o segundo problema: conseguir entender o que diabos o professor está falando. Mesmo com o francês já tendo melhorado bastante (passou de ruim para capenga), eu preciso fazer um esforço enorme para absorver tudo o que está sendo dito. As matérias da primeira unidade são, mormente, sobre economia ambiental e, embora interessantíssimas, são super técnicas e cheias de teorias as quais eu nunca tinha antes ouvido falar. Lidar com gráficos, cálculos e expressões específicas da área vem fazendo meus tico-e-téco trabalharem um bocado.

Mas, enfim, falando agora de algo mais divertido... Essa cidade tem umas esquisitices que me dão vontade de andar 24hs com uma câmera de vídeo filmando tudo para mostrar a vocês. Numero algumas em seguida:

1- As baladas que a Prefeitura promove têm frequentemente nome de comida.
 Perdi a Festa da Lentilha, porém não deixei de ir à famosa Festa da Cebola! Essa última é um evento anual que traz à praça principal de Mulhouse – e isso descobri in loco – toda a nata da “melhor idade”. Com faixa etária média de 75 anos, era tanto cabelo branco que eu me punha em dúvida se estava no céu ou na terra. E ninguém ficava parado não, viu? A soirée dansante levou a juventude toda para a pista, era pé-de-valsa e sandalinha-de-ouro em todo canto onde se olhava, achei o máximo (pai, você aqui ia fazer sucesso). Lá pelo final da festa, eu e Amanda vimos mais uns quatro perdidos como nós. Resolvemos fazer amizade. A galera era descolada e mais doida que a gente. Depois de tomarmos umas brejas juntos, e de cantar de “Voyage, Voyage” nas alturas no meio da praça, prosseguimos com a night em um pub lá perto. Infelizmente, não deu para render muito tempo. Como Natal, Mulhouse sofre da “Síndrome do Cinderelismo”, 00hs-1hra já não tem mais quase nada aberto. Conformados, pegamos a última bière, compramos uma tarte de l’oignon e voltamos para casa felizes e de bucho cheio.

2- O vício em calor.
Basta fazer um solzinho e a cidade inteira sai da toca. As ruas ficam cheias de gente. Cada um com seu casquinho de sorvete na mão, quase como se fosse um troféu. Os banquinhos perto dos jardins e fontes são os mais disputados. Só falta ter fila para sentar.

3- A moda capilar masculina infanto-juvenil.
Quem foi que disse que usar moicano ainda é up? O pior é que os adolescentes daqui poderiam até formar uma associação/clube de nome “Tenho Gel Mas Não Tenho Espelho em Casa!”. Os integrantes defenderiam a ideia de que o que importa é o que está fora da cabeça, e não dentro. Entre as vantagens, poderia estar a possibilidade de usufruir de descontos nas mais variadas lojas de produtos capilares, como em pentes, mousses e laquês. Claro, porque não é um simples moicano que eles usam, é uma espécie de modelo emo-mullets-porco-espinho-high-tech-fashion. Vez ou outra até rola uma escovinha, um loosho!

4- O império da cachorrada.
De todos os tipos, todos os tamanhos, eles estão em lojas, restaurantes, supermercados, são educados e às vezes até mais cheirosos que os donos. Já vi quase todas as raças da TV Colosso (para quem teve final da infância nos anos 90 e lembra dos personagens, tenho que dizer: Gilmar e Priscila passeiam sempre lá no centro).

Vou parando, se não a lista fica grande demais. Mas não posso deixar de pensar: o que será que o povo daqui escreveria sobre a gente, se fossem eles que estivessem em Natal? Imaginem só, Salut mama! Ça va? Por aqui tá tudo bem, mas esses brasileiros são todos meio pancada, veja que aqui chamam mulher de “boy” e quando vão falar contigo dizem “esse ômi” ao invés de “você”! O pão francês, de francês mesmo num tem é nada, e tem padaria que sequer vende baguete, uh la la!  No petit déjouner se come um tal de cuzcuz amarelo, com carne e tudo, sem falar numa comida indígena também muito comum, qui s’appelle tapioca! E le fromage? Todo mundo parece que só gosta de um bem sem graça, o “queijo prato”... Tem uma amiga minha que comprou roquefort outro dia, mas depois que abriu jogou fora porque disse fedia tanto que só podia estar estragado! Oui oui, c’est vrai! C’est bizarre, han??”.

E viva as diferenças!


ps 1: desculpem a demora pra postar, é que os dias estão super corridos!
ps 2: o aniversarinho de Mandinha foi massa, rolou um comes-e-bebes aqui em casa, depois posto fotos!
ps 3: “rentrée” é como eles denominam a “volta às aulas”.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Virando uma "citoyenne alsacienne".

Os dias estão se passando bem. As chatices administrativas – que às vezes parecem bichinhos que se procriam ad eternum - estão diminuindo. Acho que a vida aqui está finalmente começando a tomar uma rotina (no bom sentido da palavra). As ruas já me são familiares e as paradas de ônibus já não soam mais tão estranhas (“Bourtzwiller” é um exemplo), mesmo eu não utilizando tanto esse tipo de transporte. A minha casa tem cada dia mais cara de casa. Até consigo sentir aquela sensação de que-bom-de-ter-voltado-da-rua quando abro a porta.

O primeiro dia de aula será amanhã, sexta-feira. Semana passada eu fui à faculdade, dei uma circulada, um reconhecimento de área, sabe? Para ver onde é onde, como as coisas mais-ou-menos funcionam... O espaço é moderno, a biblioteca é enorme. Falta verde, devo dizer. Diferentemente do outro campus, o grandão que fica um pouco mais longe (esse que vou estudar é mais perto do centro da cidade), que, como eu já disse, é super arborizado.

No que diz respeito à vida noturna Mulhousienne, há uma luz no fim do túnel. Na penúltima quarta-feira (a antes de ontem), após fazer amizade com a minha gerente do banco (momento em que fui abrir a conta), fiquei sabendo de algo interessante que rola por aqui. Semanalmente acontece um “evento” bacana, o After-Work. Um cara chamado Lionel Scherrer (para quem for curioso e quiser procurar no Facebook) é organizador de festas e teve a brilhante ideia de fazer o seguinte: toda quarta-feira ele promove um encontro, que tem o intuito de juntar a galera jovem para tomar uma cerveja (ou afins) e jogar um papo fora. Começa cedo, às 20hs, mas tem duas fases. A primeira tem um esquema meio happy hour e vai até meia noite. A segunda vale para quem quiser (e puder) esticar a night, das 00hs até amanhecer o dia os dispostos vão para uma boate, com a opção de entrar de graça (caso peguem antes o selo do After-Work com o tal Lionel). O legal é que os bares que abrigam a festa variam a cada semana, como se fosse uma espécie de rodízio. Além disso, algumas promoções são sempre oferecidas, a exemplo de uma degustação da especialidade de petisco da casa, e também chopp vendido à preço de estudante. Eu e Amanda fomos lá conferir e o troço lota, fica até um bocado de gente na calçada porque não tem onde sentar! O problema é só que, às vezes, essa baladjinha não é propriamente em Mulhouse, mas sim em alguma pequena vila vizinha, numa das espécies de “cidades satélites” que geralmente ficam à uns 10km daqui, o que dificulta (ou impossibilita) o comparecimento para quem não tem carro, nosso caso. Isso sem falar que é meio bizarro esse rolé ser justo nas quartas, ao invés de sexta ou sábado. Enfim, pelo menos é melhor que nada!

Essa terça-feira fui à Strasbourg, tive que ir lá pegar o titre de séjour (minha identidade francesa) e aproveitei para dar uma passeada. Confesso que voltei um pouco apaixonada pela cidade! Bem maior que a petite ville onde estou, Stras tem um ar demasiado mais jovem e europeu. A arquitetura, por si só, é bem mais imponente. O clima meio parisiense e descolado não é nada difícil de ser notado logo que você desce da estação de trem. Os canais são um charme, e olhar para a vegetação de outuno e folhas secas dá vontade de pegar um livro e não fazer mais nada além de ler, o resto inteiro da tarde... Infelizmente, choveu muito enquanto eu estava por lá, mas mesmo assim o cenário não deixava a desejar. Voltei para casa com um gostinho de quero mais!


Sobre as fotos, eu juro que queria pôr um bocado, mas a internet não tá colaborando nem um pouco! Assim que eu tiver acesso em casa, posto mais coisas, prometo!

Mudando um pouco de assunto, fiquei sabendo do que houve no Buraco da Catita. Coisa mais chata, hein?! Mas acho que não precisa de tanto pantim, pois, pelo que li no jornal, aquilo lá foi resultado de uma briga de uns malucos que estavam enchendo a cara lá em Igapó. Uma pena foi o desfecho ter sido por lá... Mas não deixem de frequentar o lugar, o chorinho ainda é um dos centros culturais mais interessantes da noite natalense.

Bom, vou ficando por aqui. Beijo grande à todos e um pouquinho da minha saudade!

domingo, 29 de agosto de 2010

Vida de estudante.


A primeira coisa que pensei quando entrei na minha nova casa foi “ufa, finalmente tenho um teto e me livrei de pagar hotel”. Passeei um pouco por todos os cantos, olhando de novo aquele espaço, agora não mais reparando nos possíveis defeitos, se valia ou não o preço do aluguel, mas sim tentando identificá-lo como meu, imaginando o que poderia viver dentro dele nesse um ano que segue. Tava tudo vazio. Uma sala grande, dois quartos, um banheiro... Era só o que eu conseguia ver. Sentei, comecei a desfazer as malas (as “benditas” malas, que tanto vinham me irritando de levar para lá e para cá, finalmente eu ia me livrar delas). Só que depois foi um pouco difícil ir tirando, devagar, todas as minhas coisas ali de dentro. Cada peça vinha com um tantinho de lembrança e/ou saudade... E acho que o eco do apartamento intensificava o sentimento de estranheza.


No dia seguinte acordei melhor. Eu e Amanda fizemos uma faxinona nas coisas. Com tudo limpo, cheiroso e arrumado, o cenário já estava alegre! Mais ambientadas, pé na tábua para resolver as próximas muitas etapas burocráticas. Aqui na França tudo é um protocolo mais difícil de cumprir que o de Kyoto. Para fazer qualquer coisa é preciso um rendez-vous (uma espécie de encontro marcado, ou reunião previamente agendada), um verdadeiro treino de paciência. E apesar da simpatia das pessoas daqui, grande parte delas não é nada solícita. Não consegui diferenciar ainda se isso é preguiça de gente de interior ou se é má vontade de atender estrangeiro.


Os dias têm sido calmos. Como moro perto do centro, dou uma volta por lá quase todo fim de tarde. É adorável. O que gosto mais é de ficar observando quem passa. Cada detalhe é interessante, a roupa, os modelos de cabelo, a forma como se portam... Diferentíssimos dos brasileiros, e principalmente dos natalenses. De baladas, ainda nada de novo (mas a esperança é a última que morre). Para vocês terem ideia, essa última sexta-feira à noite estava chovendo, e como sair debaixo d’água e com frio não era uma opção que me apetecia, terminamos, eu e Amanda, na calçada em frente de casa, cada uma atracada com uma caneca de chá conversando lorota e falando de quem passava. Me senti a própria moradora de Jucurutu. Ontem descobrimos que estava tendo um tal torneio de “vôlei de praia” (a Prefeitura botou uma carrada de areia no meio de uma praça e fez a quadra) na cidade, “u-hú!”, pensamos, “deve ter uma galera jovem e animada!”. Corremos para o Carrefour, compramos uma garrafa de vinho e um pote de Pringles e fomos para lá. Cara, que decepção. Só tinha os jogadores, alguns parentes deles, eu, Amanda e um doidão falando sozinho. Até o narrador (à lá Galvão Bueno) soltou uma piadinha – que não conseguimos entender, aliás – com a gente. Derrubamos o Cabernet-Syrah, voltamos para casa, comemos um crepe com nutella (nhamm) e fomos dormir. Vocês conseguem imaginar um final de semana meu assim? Quem diria, hein?


Finalmente fiz a inscrição na faculdade, passei uma tarde inteira lá, quase. O campus é lindo! Todo gramado, cheio de árvores, um espaço enorme. Bizarro foi antes de ir embora... Fui tirar a foto da carteirinha de estudante e, depois de um dia inteiro rodando à pé, tentem visualizar como eu estava uma graça. Parecia uma monstra. Cabelo assanhado, cara de louca, olheiras, e por aí vai. Amanda não ficava atrás, no quesito look. E para piorar, a foto seria tirada de uma web cam. A galeguinha que fez o click, me mostrou para ver se eu tinha gostado. Se eu fosse mesmo feia daquele jeito, não teria nem espelho em casa. PeloamordeJesusCristinho. Amanda quando viu minha foto desandou a rir, incontrolavelmente. Mas a vez dela chegou, e o resultado foi igualmente horrendo. Eu ria compulsivamente, não sei se por alívio (de eu não ser a única) ou por vingança. No fim das contas saíu eu e Amanda tendo uma verdadeira CRISE de riso, as duas vermelhas de vergonha, uma palhaçada!


Hoje de manhã visitamos um mercado de pulgas que rolou lá perto da universidade. Do monte de quinquilharias, sobram umas coisas massas. Adorei. Vou caçar (como diria Vovó Quina) outros eventos desses.


Ah! Descobri uns museus e cinemas (Cla, num deles tá passando um documentário sobre Pina Bausch, lembrei de você!) bacanas por aqui. Por enquanto não tá dando tempo de ir, mas assim que der, venho falar sobre.


E vocês, o que têm feito? Me escrevam com novidades!

Beijocas,

H.